Toda vez que gravo um CD de áudio o nero me pergunta se eu quero deixar 5 segundos de intervalo entre as faixas. Eu, particularmente, acho que esta é uma pergunta extremamente complexa, por uma questão de relatividade do tempo. Exemplo: Se você está no trabalho, concentrado, mas ainda assim está ouvindo música, 5 segundos de intervalo entre uma música e outra está ok. Dependendo da complexidade do Excel em que você está trabalhando, você nem percebe que ainda está tocando alguma música, além daquela feita pelos números.Agora, se você está sem fazer nada em casa, se privando da capacidade de poder produzir qualquer tipo de pensamento, 5 segundos de intervalo é muita coisa, porque o silêncio só permite que os seus pensamentos fiquem cada vez mais altos e gritantes.
Durante muito tempo gostei de cantar "Azedume". Me fazia bem, sabe?! E dizia tudo o que eu gostaria de dizer (e quando tive oportunidade, disse). Mas como alguém já espalhou por ai, nossas memórias são espelhos, que estão ali pra refletir o que vivemos, e que, muitas vezes permanecem ali para poder reivindicar nossa parcela de dor e sofrimento pelo que já aconteceu, está gravado, e claro, ainda não foi superado. E Azedume era o meu reflexo, trazido pela memória. Ou talvez eu fosse reflexo do meu Azedume, rememorando e vingando o fato de que o que eu queria como faixa inicial desse álbum, era ser um pedacinho de "Aline", ainda que fosse cantado em tom de "Desce".
No silêncio do fim desse álbum, que não é tão silencioso, tocou um "Pois é", que eu mal pude ouvir, pois enquanto isso eu cantava pra alguém, além do que se ouve, aquela lá, "Além do que se vê".
E depois disso, assim que pude, eu escolhi ter os 5 segundos de intervalo entre as faixas. Os 5 segundos de silêncio. Silêncio constrangedor. Ou talvez tão constrangedor assim. Mas o que importa é: e como tive! Tive os 5 segundos mais longos de toda a história da humanidade. Muitos silenciosos e permissivos para que pensamentos não tão silenciosos o acompanhassem. Muito pelo contrário, os pensamentos se tornavam "cada vez mais altos e gritantes".
Mas logo que se iniciou próxima faixa, percebi que as canções não eram uma simples play list, mas um álbum continuo que, mais uma vez, refletia fracasso e inabilidade. Era novamente Los Hermanos, cantando "Mais uma canção", quando o que eu queria mesmo era ter uma "Conversa de botas batidas".
Dançando no ritmo de "Samba a dois", percebi que os 5 segundos tinham durado muito mais do que deveriam, então, no momento mais oportuno possível, tocou "A palo seco". Hoje, vejo que todo o álbum se tratou de um belo "Retrato pra iaiá".
Como faixa bônus, "Lisbela" mantém ainda o seu espaço, afinal de contas, eu ainda quero a sorte de um chofer de caminhão, em ritmo de "Liberdade" e aproveitando cada segundo das faixas que ainda insistem em tocar, afinal, uma hora "Todo carnaval tem seu fim".
4 comentários:
Muito entendivel, esses seus 5 segundos embalados de inspirações "Los Hermanicas".
"Pois é", é Los Hermanos.
Abraço apertado, "Morena". ;p
Há quem diga que Los Hermanos se resume em "Ana Júlia".
Você provou que "Do lado de dentro" de uma "Janela", "Tá bom" pra "Uma Brasileira" parar 5 segundos e refletir além da "Ana Júlia" e chegar até um "Ultimo Romance" de "Lisbela"
Eu tava me achando entendida das músicas... mas os comentários acima acabaram com a minha chance de fazer um rimadeiro destes, rs
E viva as hermanas!
Com muitos segundos antes, durante e depois!
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